Novo Vale dos Imigrantes gera críticas dos pesquisadores

01/04/2020 15:21

A Guerra do Contestado (1912-1916), que colocou de lados opostos os camponeses e o Governo Federal da época, ocorreu no antigo vale do Contestado. A memória da guerra encontra-se preservada em museus, monumentos, sítios históricos e espaços de peregrinação religiosa em vários municípios do vale do Contestado. A região histórica construída pela presença dos imigrantes alemães, italianos e japoneses, além dos caboclos e negros que já habitam a região, é hoje um destino turístico muito procurado no Brasil.

No dia quatro de julho de 2019, foi proferida a decisão pela Instância do Governo Regional do Vale do Contestado que mudou o nome da região turística para Vale do Imigrante,  que será composto por 25 municípios, entre eles as cidades de Itaiópolis, Mafra, Major Vieira e Porto União. O desmembramento do Vale do Contestado já foi reconhecido pelo Ministério do Turismo e faz parte da 13° região turística de Santa Catarina, sendo publicado do Mapa do Turismo Brasileiro 2019. 

Tal decisão polêmica, tomada sem a consulta com os acadêmicos e historiadores da Instituição da Memória da região, não foi bem recebida pela maior parte da população e uma denúncia de ausência de debates sobre a substituição foi levada ao Ministério Público e Assembleia Legislativa. De acordo com o professor Nilson Cesar Fraga, que estuda a região e a Guerra do Contestado há 25 anos, a mudança é um “atentado contra a formação do povo catarinense”. A história e efeitos que a Guerra do Contestado teve sobre a região, e a presença dos negros e caboclos têm sua importância negada em favor da valorização da colonização europeia.

Tal decisão polêmica, tomada sem a consulta com os acadêmicos e historiadores da Instituição da Memória da região, não foi bem recebida pela maior parte da população. A história e efeitos que a Guerra do Contestado teve sobre a região, e a presença dos negros e caboclos têm sua importância negada em favor da valorização da colonização europeia. A Instância Governamental justificou sua decisão em ata como uma melhor forma de apresentação da região para o roteiro turístico. 

A Instância Governamental justificou sua decisão em ata como uma melhor forma de apresentação da região para o roteiro turístico, tentando tornar o Vale do Imigrante um projeto turístico que lembra as cidades gaúchas de Gramado e Canela.  Para o pesquisador Paulo Pinheiro Machado, professor de História da Universidade Federal de Santa Catarina, tentar imitar um modelo de sucesso, negando a identidade da região é um desrespeito pela nossa história e não há justificativa econômica que permita esse feito.

Já para a presidente da IGR Caminhos do Contestado, Viviane Bueno, o desmembramento vai ajudar a desenvolver a região, que é uma das mais empobrecidas de Santa Catarina. Justifica que cidades como Piratuba, com muito mais infraestrutura, estavam classificadas na mesma região que municípios que não tinham capacidade de atender visitantes.

Referências:

BASTOS, Ângela. Mudança do nome e perda de área do Vale do Contestado geram críticas de pesquisadores. NCS Total notícias, 2019. Disponível em: <https://www.nsctotal.com.br/noticias/mudanca-do-nome-e-perda-de-area-do-vale-do-contestado-geram-criticas-de-pesquisadores>. Acesso em: 23 de março de 2020.
MACHADO, Paulo Pinheiro. Em defesa da Memória, da Justiça e da Cidadania das populações do Contestado. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2019. Disponível em: <https://paulopinheiro.paginas.ufsc.br/2019/11/>. Acesso em: < 23 de março de 2020.

Texto por Francine Soares de Almeida e Karen Wesseler Jung.